TEXTOS, CRÔNICAS, REFLEXÕES

Qual é a sua limitação?

1 Jul 2017

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Ao ler essa frase, normalmente pensamos naquele aspecto da nossa vida que gostaríamos que não existisse. Me refiro justamente àquilo que não fazemos a mínima questão de compartilhar a nosso respeito quando conhecemos alguém interessante. O que você mudaria em sua vida em um estalar de dedos, se pudesse? O que tem te impedido de realizar os seus sonhos? 

 

Eu acredito que não é difícil encontrarmos diversas razões para não estarmos vivendo da forma que gostaríamos, para não estarmos genuinamente felizes. Cada um tem as suas próprias vivências e, consequentemente, os seus traumas. Sim, cada um tem o seu próprio “fardo” nessa vida, mas o ponto principal é o que fazemos com toda essa bagagem que a vida coloca em nossas mãos, incluindo as nossas decepções e traumas. Ninguém, absolutamente ninguém passa por essa vida sem sofrer decepções, traições e desilusões em diferentes graus. O que mais te dói em relação ao seu passado e presente? Qual recordação dolorosa você mudaria, se fosse possível? Do que você mais se lembra: das suas vivências alegres ou tristes? O que você tem feito das suas lembranças?

 

Você tem um poder enorme em suas mãos que talvez ainda não tenha parado para refletir a respeito: o poder da escolha. Você pode escolher o que fazer da sua tristeza e mágoas, podendo voltar toda a sua atenção para essa dor e permitir que ela paralise a sua vida ou então aprender com ela e usá-la a seu favor, para o seu próprio bem e também dos outros. Você não é a sua dor nem a sua tristeza, é muito mais do que isso: um ser com um potencial infinito de superação.  

 

Para muitos, essa dor é gerada ao receber o diagnóstico de uma doença como a Retinose Pigmentar. Eu confesso que demorei muito para aprender tudo isso e o processo não foi nada fácil. Descobrir que tenho uma doença degenerativa na retina que não tem cura nem tratamento específico (com evidências cientifícas) não é algo fácil de encarar. Uma pessoa que sempre foi independente e passou a infância inteira correndo velozmente em bicicletas e sobre patins não gostaria de chegar na idade adulta sem absolutamente nenhuma visão periférica. A verdade é que ela gostaria de continuar andando de patins, uma de suas grandes paixões. Ela gostaria de continuar sendo independente. “Gostaria”, um mantra de lamentação que me acompanhou durante muitos anos ao longo desse processo de autoaceitação de algo que não posso mudar no momento: a minha retina. Aprendi que a minha visão periférica não posso ampliar mas há algo muito mais valioso que tenho o poder de fazer: ampliar a minha visão de quem eu sou. Enquanto fui perdendo pouco a pouco a minha visão periférica, que a cada exame mostrava-se mais e mais reduzida até ser totalmente extinta, lentamente comecei a enxergar tudo aquilo que eu podia fazer apesar da minha deficiência. Dessa forma pude perceber que a Retinose Pigmentar não me define. Hoje, com a visão periférica reduzida a zero e o campo visual com menos de 10º em ambos os olhos (enquanto uma pessoa com visão normal possui 60º de campo visual), a minha visão sobre mim mesma se expandiu incrivelmente.

 

Como mencionei, não foi um processo fácil mas valeu muito a pena. No início, quando recebi o diagnóstico aos 18 anos, chorei muito, tinha vergonha de contar às pessoas ao meu redor sobre a deficiência e não conseguia entender o motivo de precisar “carregar” essa doença por toda a minha vida. Eu pensava merecer algo melhor e ter um destino mais feliz. E esse destino não me parecia nada feliz. A verdade é que uma doença nunca é algo feliz. Não há quem diga: “nossa, como estou feliz, descobri que tenho uma doença incurável!”. A felicidade chega no momento que tiramos o foco da nossa dor e colocamos em nosso potencial, em tudo aquilo que ainda podemos fazer apesar daquele diagnóstico. Sempre há algo que podemos fazer. Que tal ao invés de jogar fora os seus sonhos, reciclá-los?

 

Uma deficiência pode te impedir de fazer várias coisas da forma que você gostaria, mas já parou para pensar em todas as outras formas que você poderia realizar aquilo que tanto deseja? Talvez você precise fazer alguns ajustes naquilo que considera ser a circunstância “ideal” para começar a agir. O único momento que existe é o agora, o presente, e o que você está fazendo nesse instante para construir o que tanto deseja?   
A sua deficiência não te limita, mas sim as suas crenças a respeito de si mesmo.
Talvez não dê para você fazer tudo sozinho e precise do auxílio de alguém, e não há problema nisso. Está tudo bem, respeite o seu tempo e o seu próprio processo de autoaceitação. Lembre-se sempre que você pode muito mais do que imagina.

 

Quando você inicia o seu processo de aceitação, depois de um tempo toda aquela dor chega ao fim e todos os obstáculos passam a ser vistos como desafios e não limitações. 


A sua única limitação está em sua própria mente. E a sua mente, mente, sabia? Tudo o que você precisa para se superar já está dentro de você mesmo. Acredite no seu potencial de superação e não permita que uma doença defina e limite a sua vida.

 

Ah, e a menina que perdeu a visão periférica finalmente voltou a andar de patins! Adaptações são possíveis e sempre valem a pena para realizarmos os nossos sonhos. :)
 

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