TEXTOS, CRÔNICAS, REFLEXÕES

A maior barreira está dentro de nós

27 Jun 2017

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Muitas vezes, diante dos obstáculos diários que, à vida coloca-se, inspiramos fundo e num ato tão intenso como um abraço apertado cheio de saudade, o ente amado fazendo-nos pulsar todo o corpo, o sangue correndo mais e mais rápido, sentido-se como se o sol estivesse assentado sob nossas cabeças, perseguimos um foco à frente, atrás, ao lado. Então, percebemos uma barreira.

 

Embora ele possa perceptivelmente ser físico, táctil, palatável, o obstáculo não é algo ou alguém esbarrado, algum tropeço ou queda e, sim, o impacto gerado por esses sucessivos pequenos fracassos de “normalidade” civilizatória, encerrando-nos em nossas bolhas, claustrofobicamente seguras e previsíveis. Mas, então, isso ocorre por quê? Por que comportamo-nos como se nada lá houvesse, como se nenhuma ajuda fosse necessária ou "sou atrapalhado mesmo e um tanto distraído, desculpe, vou prestar mais atenção da próxima vez"? Será este um grito velado ao tentar-se encaixar em algo que não se encaixa? Somos cilindros enquanto há somente encaixes triangulares. Neste exato momento, levanta-se em nós um alicerce: o não pertencimento e a solidão. Mais à frente, subindo linha a linha as tijoletas ou tijolos, vamos acimentando as desilusões, as desconfianças e a desvalorização, somando-as uma a uma à necessidade interminável de fazer-se presente e mostrar-se capaz. Pois, então, após sucessivas idas e vindas, o burgo está feito. Algo tão natural e assustadoramente repleto de significado, chega a confundir nossas mentes, tábuas jovens e tenras em que este cravo meritocrata é martelado sucessiva e constantemente, presas fáceis em busca de um sentido.


Face a tudo isso, como a desconstrução pode ser ensaiada? Como movemo-nos em toda a nossa existência em uma horda sedenta a fim de destruir tudo até não sobrar um pó sequer desse muro de Berlin erguido dentro de nós? Mas, vejam! Por mais simplória e leviana que possa parecer, a resposta está à nossa frente, está a afrontar-nos ao espelho, se é que ainda conseguimos ver-nos refletidos nele. Urge neste momento confrontarmo-nos em uma busca incessante por nós mesmos. Cá entre nós, presunção minha seria querer descrever alguma receita. Pois, não há! Somos únicos e o que vibra aqui, porventura, talvez. vibre lá, quiçá acolá. Assim sendo, o primeiro passo dessa busca será perceber-se com todo o carinho e entender o seu limite. Sim, todos somos falíveis e limitados em algum ou outro grau.


No meu caso particular, a virada aconteceu quando, de fato, percebi o meu limite e este ato carinhoso comigo mesmo, algo que somente eu posso me dar e não há como delegar aos outros, fez com que eu começasse a usar a bengala verde — ela me identificada como portador de baixa visão. Eh! Isso mesmo. Por mais confuso que possa parecer, vejo muito menos que você mesmo isso não sendo evidente e ainda não estou cego. Sigo nesse limbo entre a visão dita normal e a cegueira (não vou me ater às especificidades de cada síndrome ou doença que a tem como resultado ou sintoma, isso é conteúdo para vários textos). No momento em que deixei de evitar a ajuda dos outros e apresentar-lhes o que povoa toda a minha existência, mas que, ao olhar do outro, não é perceptível, um mundo deixou de pesar sobre os meus ombros, tornando o dia-a-dia mais tolerável, menos ressentido e ansioso. Deixei de estar tão alerta — não mais serei atacado por um besta à espreita, somente esperando um deslize meu. Passei a perceber as nuances e os cheiros do dia, os quais estavam inócuas e em suspenso sob tanta ansiedade e alerta.


A partir desse ato, comecei a minha obra pessoal de desconstrução do meu muro de Berlin. É assim mesmo, isso é pessoal e intransferível. Não é e não foi uma caminhada fácil. Na verdade, não é para ninguém. Como dizem o grupos de ajuda de quaisquer natureza, um passo de cada vez e constância. Por mais que queiramos rapidamente livrar-nos desses grilhões, cada um tem o seu tempo, uns mais, outros menos rápido. A cada dia, removo uma pedra e vou estilhaçando-a até que o pó desfaça a memória e o velho hábito seja substituído por um novo passo em um novo caminho.


Quebrar as barreiras que construimos para autoproteção é um exercício diário de carinho consigo mesmo. Ninguém é merecedor de um fardo como este, nem deve carregá-lo. Pense nisso. Isso somente depende de você e é somente para você.

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